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Identidade das Raças Equídeas de Marcha

   No contexto da Equideocultura mundial, a brasileira se apresenta como uma das mais ricas, pois engloba 07 raças de andamento natural marchado. E como o principal mercado mundial consumidor de equídeos concentra-se no segmento dos equinos de lazer, a nossa equideocultura é realmente diferenciada. É oportuno lembrar que a palavra equideocultura abrange os asininos e muares, ao contrário de equinocultura, que se refere exclusivamente aos equinos. O Brasil é o único país do mundo a possuir uma raça pura de jumentos marchadores, conhecida como Pêga, responsável pela produção dos famosos muares marchadores de sangue Pêga misturado com sangue equino das raças de marcha. Apenas duas raças foram formadas fora de Minas Gerais, a Campeira, em Santa Catarina; e a Mangalarga, em São Paulo. Esta ultima é motivo de controvérsia acadêmica, devido à denominação de seu andamento: "Marcha Trotada". De fato, soa como uma incongruência. Porém, dependendo do grau de diagonalidade da marcha, esta poderá estar situada bem próxima do trote convencional. Se não há perda de contato dos cascos com o solo, o andamento não pode ser classificado como saltado, que seria o caso do trote. Como é de frequência prevalente na raça Mangalarga os andamentos de transição, nos quais ocorrem momentos de apoios mono ou quadrupedais entre as trocas de apoios bipedais diagonais, entendo que a denominação "Marcha Trotada" passa a ser aceitável, do ponto de vista acadêmico.

As outras 05 (cinco) raças equídeas de marcha foram formadas no Estado de Minas Gerais, sendo: a de asininos Pêga, equinos Mangalarga Marchador, Campolina, Piquira, Pampa. Esta ultima é recente, somando apenas 8 (oito) anos de Registro Genealógico. Vem sendo formada com base genética de raças nacionais de marcha e da raça Crioula.

O início da formação das raças antigas data do final do século IX. A fixação de características raciais ocorreu ao longo do ultimo século, com uma aceleração do processo a partir da implantação dos serviços de Registro Genealógico, o que ocorreu por volta da segunda metade do século XX.

Desde os primórdios, havia uma tradição envolvendo trajes típicos e arreamento. Por arreamento entende-se embocaduras, sela e acessórios, ajudas auxiliares de equitação. Além das características raciais de morfologia e andamento, o arreamento e trajes típicos também estão ligados à identidade de cada raça.

Infelizmente, quase todas as nossas raças brasileiras vêm perdendo suas respectivas identidades próprias, devido à um fenômeno mundialmente conhecido como "homogeneização" das raças equinas. Como é típico do brasileiro não valorizar o que é da terra, permitiu-se que influências de raças exóticas descaracterizassem a identidade de cada raça, em um grau maior ou menor. A raça que mais influencia outras raças é a Arabe. Primeiro, pela sua prepotência genética, como a raça mais pura do mundo. Segundo pela beleza de sua apresentação em pista.

Na raça Mangalarga Marchador os estragos foram relevantes. Através da entrada de sangue Árabe em determinada linhagem, todo um trabalho de seleção centenária, desenvolvido por tradicionais criadores mineiros desde o início do século XX, através de um louvável ideal de forjar raças puras, foi drasticamente prejudicado em apenas uma década de valorização daquela linhagem nas pistas de julgamento. O andamento mudou, de uma marcha batida clássica, para uma marcha de transição, bem próxima da marcha trotada. A equitação, antes tipicamente de estilo rural, passou a sofrer influência dos estilos clássico e militar, em termos de postura, tipos de rédeas e embocaduras, selas, vestimenta usada por cavaleiros e amazonas. Os bridões e freios típicos dos cavalos marchadores, antes largamente utilizados nas regiões do sul e sudoeste mineiro, foram substituídos por outros típicos dos cavalos trotadores.. As selas, antigamente do tipo mineira ou paulista, genuinamente nacionais, foram substituídas pelas estrangeiras, do tipo australiana, inglesa, americana e, mais recentemente, o "cutiano", que desloca o assento do cavaleiro para a dianteira e limita o uso do estilo rural da equitação do cavalo marchador.

Na apresentação de pista, os cabrestos tradicionais confeccionados em couro cru curtido e transado, de material natural, foram substituídos por cabrestos finos de cabo de aço, cortantes, agressivos, ou de correntes passando sobre o chanfro ou queixo, também de muita severidade. Já os chicotes de fibra foram uma evolução na apresentação de pista, mas quando em mãos competentes e não violentas. Da mesma foram, as talas de equitação foram uma evolução, em relação aos chicotes de doma e serviço. Também o uso de esporas mochas, foi uma evolução em relação às esporas de rosetas longas e perfurantes.

No traje típico, os chapéus foram substituídos pelos bonés, que mais lembram cavaleiros urbanos. As camisas, antes em estilo rural brasileiro, foram substituídas por camisas pólo, sem vínculo com o meio rural brasileiro.

O processo da doma moderna, conhecida como doma racional, trouxe muitas vantagens. A principal delas foi minar o processo violento da doma tradicional. Entretanto, muitos marchadores natos estão perdendo a qualidade de marcha e mesmo de temperamento de sela através do método 100% doma racional. Esta é uma verdade que prefiro discutir em outra matéria específica sobre o assunto, devido à complexidade, importância e polêmica que certamente será levantada.

É triste reconhecer, mas a falta de mais fidelidade no nacionalismo brasileiro também é notório na equideocultura. Ao contrário, todas as raças americanas têm identidade própria, principalmente a mais famosa delas, a Quarto de Milha, 100% fiel ao estilo cowboy de equitar, de arreamento e de vestir. As raças espanholas também são meticulosamente nacionalistas, de identidade própria impar; as raças de hipismo clássico idem.

Os dirigentes das associações brasileiras de criadores, juntamente com os respectivos conselhos técnicos que decidem normas de regulamentação, precisam parar para refletir sobre a preservação da identidade de nossas raças. Caso contrário jamais haverá um reconhecimento além fronteiras brasileiras, o que é limitante em termos de abertura de mercado.

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