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A decadência de um Patrimônio Nacional

  Quando meus antepassados participaram efetivamente da fundação das principais Associações brasileiras que congregam criadores de cavalos de marcha - Mangalarga Marchador , Campolina, Piquira - prestaram ao país uma contribuição muito mais do que meramente de cunho histórico-cultural. Foi o marco do desenvolvimento zootécnico de raças genuinamente nacionais, oriundas do Estado de Minas Gerais e que há muito já deveriam ter auxiliado na projeção do país no cenário mundial da indústria eqüina. Contudo, ao longo dos anos, em especial nesta década e na anterior, os objetivos básicos, alicerçados sobre andamentos marchados legítimos, foram relegados a um plano secundário. O que se vê hoje é um quadro desanimador, em que as Associações de criadores são dirigidas por elites que desprezam vontades e interesses de uma massa incalculável de usuários dos cavalos de marcha espalhados por todos os Estados da Federação, notadamente no interior e, portanto, com sólidas raízes no meio rural, que encara o cavalo como ferramenta de serviço, como necessidade social e, até mesmo, de sobrevivência. Acuados, estes "pequenos" afastaram-se dos eventos promovidos pelas Associações nacionais, por não terem chances de uma competição justa contra animais de propriedade dos "caciques"das raças. .

Nas Exposições oficiais não são os cavalos de raça que atraem o público, mas sim os rodeios e os shows musicais. Toda uma conjuntura arcaica de organização de Exposições eqüestres precisa ser modificada no país.

Os pequenos criadores, proprietários e usuários, merecem mais consideração e respeito. Afinal, são eles que representam a grande fatia do mercado consumidor. Como em todo país democrático, todos têm o direito de opinar e manifestar seus ideais. A maioria deseja que os autênticos cavalos de marcha tenham espaços igualitários nas Exposições, com julgamentos isentos de interesse, de protecionismos, e respaldados em critérios fiéis às definições inseridas nos Padrões Raciais, os quais, diga-se de passagem, são subordinados ao Ministério da Agricultura. .

O que estão fazendo com as nossas raças de cavalos de marcha é acima de tudo, um crime contra o patrimônio nacional. Prova maior é que os europeus e americanos que vieram ao Brasil por diversas ocasiões, não aprovaram a tal "Marcha Batida"do Mangalarga Marchador, o porte exagerado e o tipo abrutalhado que ainda predomina no Campolina, e o trote que se infiltrou na raça Piquira. Tivessem eles visitados festas e Concursos de Marcha regionais, que acontecem em todos os finais de semana no interior de vários Estados, teriam encontrado nosso verdadeiro tesouro, estas jóias raras que são os cavalos de marcha de "Centro"e a marcha "Picada", no "curto" e no "largo" expressões utilizadas pelos estrangeiros em todos os países das Américas . Estas marchas são preciosidades muito valorizadas em países de primeiro mundo. Sugiro que os dirigentes de nossas Associações brasileiras visitem Exposições de cavalos de marcha em todos os países da América do Sul, América Central e, principalmente, nos Estados Unidos, onde o cavalo marchador da raça Paso Fino (somente marcha "Picada") congrega dezenas de Associações regionais, sob o comando da PFHA - Paso Fino Horse Association, contando com 6000 sócios atuantes. E vejam que a PFHA foi fundada no início da década de 70, portanto, 20 anos após a fundação das nossas que, juntas, não somam 6000 criadores atuantes.

Neste momento difícil pelo qual passam todos os setores da economia nacional, o da Equinocultura é dos mais sofridos. Entretanto, hoje estaríamos exportando, com certeza, para Europa e Estados Unidos, se nossos plantéis de cavalos de marcha apresentassem hegemonia em termos de marcha autêntica ( de Centro ou Picada) que é o andamento internacionalmente aceito. Na Colômbia, cavalos de marcha "Batida" são julgados à parte, pois representam uma raça denominada de "Trochadore". Nos Estados Unidos, cavalos de marcha Batida integram a raça " Missouri Fox Trot" e não se intercruzam com os Paso Finos, estando limitados estritamente ao Estado do Missoure. A raça não teve aceitação naquele país, porque preferem a marcha Picada do Paso Fino. Na França, cavalos com esta mesma marcha "Batida", são conhecidos como "Petit Trot". No Brasil, temos os Mangalargas (Paulista) cujo andamento característico é a "Marcha Trotada", que em termos de diagrama, da mecânica de apoios, pouca diferença tem da atual "Marcha Batida" dos Mangalarga Marchadores. A verdade incomoda, mas precisa ser dita e aceita: a marcha "Batida" deriva do Trote e, portanto, está longe de ser considerada como a mais pura dentre as modalidades de marcha.

Na verdade, analisando estas ponderações, podemos concluir definitivamente que não é possível continuar a depredação de um patrimônio de valor inestimável, como este, representado pelos legítimos cavalos de marcha. Se a causa não é nobre o suficiente para justificar uma intervenção de técnicos vinculados ao Ministério da Agricultura nas Associações de cavalos de Marcha, criadores deveriam se unir, com apoio dos núcleos e clubes regionais, visando normatizar critérios, sistemas e metodologias de julgamentos, proporcionando espaços justos para uma competição saudável, em que cada modalidade de marcha tenha o seu devido valor. Com tal medida, seria dado o primeiro passo para o resgate desse nosso patrimônio nacional. E assim, todos os abnegados e sábios selecionadores das décadas de 40 e 50, que deram os primeiros passos para a fundação de nossas associações, poderiam descansar em paz, onde quer que estejam....


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