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Cultura da Marcha Natural de Tríplice apoios

  A Equideocultura brasileira tem o privilégio de possuir 6 raças equinas de marcha e uma raça asinina, a Pêga, também de marcha. As raças equinas são representadas pelas raças Mangalarga Marchador, Campolina, Piquira, Campeiro, Mangalarga e a jovem raça Pampa. Alguns leitores, mais informados, podem estranhar a inclusão da raça Mangalarga. Mas é fácil explicar. Primeiro, porque o andamento característico é a "Marcha Trotada", um andamento que se difere do trote convencional, basicamente porque os momentos para as trocas dos apoios diagonais podem ocorrer na forma de uma suspensão mínima, apoio quadrupedal, ou apoio monopedal. Além da diferença no diagrama do andamento, também há um estilo característico na marcha trotada, com deslocamento mais articulados e levemente alçados. Obviamente, havendo na frequência das passadas algum momento de perda de contato dos cascos com o solo, o andamento não pode ser considerado como marchado. Todavia, na atual população da raça Mangalarga Marchador, um incontável numero de animais apresenta uma diagonalidade muito próxima daquela observada na raça Mangalarga, ou até maior, com momentos de suspensão nítida dos quatro cascos. Tenho montado em exemplares de ambas as raças confesso que geralmente a comodidade tem sido melhor na marcha trotada, em relação à esta marcha diagonalizada do Mangalarga Marchador, que é bastarda, pois a pureza de sua origem é duvidosa.

Infelizmente, a verdade às vezes incomoda, mas precisa ser dita. Estamos perdendo a cultura da marcha natural de tríplice apoio, que foi justamente o motivo da cisão da raça Mangalarga, culminando com a fundação da Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo Mangalarga Marchador. Na raça Piquira, que antigamente tinha como marcha preferencial a Picada, atualmente o andamento que vence nas pistas é executado a dois tempos, sincronizado, rasteiro, de grande velocidade, para dificultar a visualização a olho nu dos momentos de suspensão. São os chamados cavalos "velocistas", também muito comuns nas exposições da raça Mangalarga Marchador.

Caro leitor, sou de meia idade, mas desde criança, convivi com criadores antigos, que forjaram várias linhagens pilares de nossas raças de marcha nas primeiras décadas do século XX. Sabemos que tudo na vida evolui, a partir das tecnologias, dos novos conhecimentos. Porém, a cultura da marcha natural de tríplice apoio é imutável. Ela é ignorada, deteriorada, somente por obra de modismos, de interesses, da política de associações, pela própria falta da cultura da marcha.

É muito simples explicar a cultura da marcha natural de tríplice apoio. Sabemos que os padrões raciais de todas as raças equideas de marcha desclassificam os animais de andadura e de trote. No primeiro caso, quando a movimentação em média velocidade é caracterizada pelo deslocamento simultâneo dos bípedes (conjunto formado por dois membros) laterais, que ao tocarem o solo ao mesmo tempo, geram um atrito vertical, seguido por atritos laterais e longitudinais. O desequilíbrio é tremendo. Já no caso do trote, ocorre o contrário. O deslocamento dos bípedes diagonais é simultâneo. Ao tocarem o solo geram um forte atrito vertical, lançando o cavaleiro para cima. Do ponto de vista da mecânica da locomoção do equino, a única forma de evitar estes andamentos é através da ocorrência dos momentos de tríplice apoios (três cascos sobre o solo), que serão tanto mais definidos quando maior for a dissociação dos bípedes, seja na lateral ( marcha picada ) ou na diagonal (marcha batida). Os apoios diagonais e laterais que ocorrem em todas as marchas completas, de qualidade, sucedem-se intercalados por apoios tripedais, que não podem ser sutis, devem ser bem definidos, em cada passada. Aí sim, teremos uma marcha natural de qualidade, a qual, felizmente, é valorizada por uma massa incalculável de usuários de cavalos para passeio. Eles prezam a comodidade real, aquela sem atritos verticais, que são tolerável somente por aqueles que dominam a nobre arte da equitação.

A marcha natural não depende de velocidade. Ela é como o passo. Cada membro desloca a seu tempo, em um descompasso nítido. Também não depende de embocaduras ou de equitação. Ela já se manifesta nas crias ao pé de suas mães. Na doma de sela, basta permitir que ela flua, tendo o domador que se preocupar apenas com a correção do posicionamento da cabeça, das respostas precisas aos comandos principais da equitação, o desenvolvimento da amplitude das passadas, a manutenção de uma boa regularidade, buscando um estilo que seja indicativo de eficiência e elegância na movimentação.

Estamos perdendo a cultura da marcha natural de tríplice apoio. Hoje já não se adestra cavalos marchadores como antigamente. A equitação rural típica foi substituída pela equitação estilo clássico e até mesmo estilo militar. As embocaduras geralmente não são apropriadas para os cavalos de marcha natural de tríplice apoio, mas sim para aqueles de marcha diagonalizada, ou porque não dizer, de marcha trotada, trote desunido ou até mesmo trote convencional. As mãos que hoje lapidam um marchador, não são mãos que herdaram a sensibilidade por trás da legítima cultura da marcha. Muitos olhos que hoje selecionam cavalos marchadores, estão cegos pela frieza da genética dominante dos andamentos diagonalizados. Muitos julgamentos que deveriam servir para alavancar o processo do melhoramento genético, levam sim a resultados que descaracterizam a razão de ser um exemplar marchador, na essência da palavra.

 

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