AS MELHORES CAVALGADAS DE 2007
Na opinião do cavaleiro Luis Werneck
Ao encerrar o Ano de 2007, destaco quatro cavalgadas, diferentes umas
das outras, mas que me impressionaram sobremaneira. Para cada uma
dessas, elegi uma denominação que talvez sintetize a razão de sua
escolha:
- A Mais Social;
- a Mais Natureza;
- a Mais Completa;
- a Mais Desafiante.
A Mais Social ocorreu durante um gostoso final de semana do início de
maio, na Serra da Bocaina, divisa dos estados do Rio e São Paulo.
Éramos cerca de vinte a cavalo, acrescidos dos parceiros ou parceiras
que não cavalgavam. Mas todos estavam já comprometidos com esta
cavalgada desde o início do mês de março. Ficamos baseados na
aconchegante Pousada da Joaninha, a cerca de 1600 metros de altitude,
de onde partiríamos nos dois dias seguintes para cavalgar por caminhos
entre 1550m e 1850m, vistas inesperadas, um friozinho seco, gostoso.
Chegáramos na véspera, uma sexta-feira amortecida que permitiu a todos
deixarem seus afazeres no início da tarde e viajarem para jantarmos
juntos, aquecidos pela lareira e pelo vinho de nosso anfitrião da
Joaninha. Excelente grupo, ótimos vinhos, papo agradável. Boa parte já
se conhecia, tendo como referência o extraordinário casal organizador
desta cavalgada, Renata e Luis Augusto Sinisgalli, do Haras do
Mosteiro. Em pouco tempo o entrosamento foi geral. Harmonia,
gentileza, simpatia, cavalheirismo, contos e risos foi o que não
faltou. Não me lembro de outra cavalgada que tenha sido em local tão
especial e igualmente tão social!
A Mais Natureza foi uma grata surpresa para mim. Início de dezembro,
primeira cavalgada após oito semanas de abstinência forçada. Cavalgara
outras vezes pela região, conhecera as fazendas-pousos, reconhecia
trechos, canions e vaus por onde já passara em cavalgadas que por lá
faço desde 2004. Mas dessa vez o trajeto e os pousos estavam muito bem
escolhidos a dedo, ou melhor, a pata-de-cavalo! Nos cinco dias dessa
viagem a cavalo, nosso pequeno grupo - menção honrosa a um estreante e
simpático casal de médicos vindo de Campinas - não percebeu carro nem
estrada, mas sim vivenciou, como só a cavalo se consegue, uma Natureza
prodigiosa, abeirando os espetaculares canions, ora por um lado, o sol à frente, ora rodeando quilômetros para apreciá-los tendo o sol pelas
costas.
Corucacas, lebres, rastro do leão-branco, veadinho correndo ao
largo, nada abundou, mas não faltou. Tudo como que entelado pelas
inigualáveis araucárias e verdes campos. São Pedro estava de bom
humor, agraciando os dias com temperaturas amenas, muito sol, pouca
chuva, madrugadas e noites agradavelmente frias. Para culminar,
presenteou-nos um dia de 'viração', rolos de nuvem chegando de chofre,
emoldurando no início a paisagem, aos poucos ocupando todo o espaço
visível, envolvendo, por fim, a tudo e a todos numa neblina branca que
se acinzenta, umidifica, refresca. É o fenômeno do choque do ar quente
e úmido vindo do baixio litorâneo, cerca de 1300 metros diretamente
abaixo dos aparados da serra, com o ar frio e seco dos campos de cima
da Serra Gaúcha e Catarinense. Atravessamos as fronteiras dos dois
estados, cruzando a cavalo o rio das Contas, varamos muitos outros
lindos riachos e rios, entramos por inesperados e belos vales
empedrados, passamos por taipas seculares, quiçá construídas 300 anos
atrás. Sem dúvida o cavaleiro Paulo Hafner mostrou porque é "O Mestre"
das viagens a cavalo no Brasil, sempre a campo fora.
A Mais Completa cavalgada teve de tudo de bom, pelo menos um pouco...
Vistas maravilhosas, estradinhas e trilhas montanha acima e montanhas
abaixo, campos nativos, riachos, festa de aniversário, almojantas
gastronômicos, pousadas rústicas, pousadas charmosas e até exóticas. A
cavaleira menos experiente do grupo de oito - seis meses atrás é que
conhecera o lombo de um cavalo - mostrou-se firme, animada e corajosa:
foi a heroína da viagem a cavalo, seis dias de Visconde de Mauá, RJ, a
Ayuruoca, MG, onde se alcançaram altos, na Serra da Mantiqueira de
2180 metros de deslumbre. Reservas naturais onde só se percorre a pé
ou a cavalo, com bom guia a cada techo, e um bom conhecedor e
organizador geral.
Este foi o Rodolfo Costa e Silva que, de sua
Fazenda Águas Claras, bolou tudo, inclusive a grande surpresa:
presenteou-nos, no quarto dia, em plena mata do Vale do Matutu, com um
espetacular SPA recém construido com direito a banho de rosas, ou
massagem, ou ofurô, com sauna de entrada. Todos que participamos não
nos esqueceremos desses dias de junho. sabendo que é possível o
repeteco ano que vem, sem cansar jamais!
A Mais Desafiante. Dela participo todos todos os anos, desde 2004.
Ocorre sempre em Julho, pleno inverno. Nada interrompe sua marcha, nem
neve, nem chuva, nem frio, muito menos o raro calor que às vezes
ocorre em seus oito dias... Se num ano é de Santa Catarina para o Rio
Grande, no outro o sentido é inverso, procurando percursos novos,
pelos campos, vaus de rios - os passos 'da Ilha', do 'S', 'da
Margarida' -, os capões de mato, os alagados, diferentes momentos,
diferentes situações climáticas, com certas travessias ou passos se
tornando familiares, mas sempre com um novo ângulo, entusiasmando o
cavaleiro.
É a antiga Cavalgada do Caminho das Neves, tradição que
envolve alguns municípios serranos e limítrofes de Santa Catarina e
Rio Grande do Sul, e por eles é promovida, tendo o cavaleiro Alvaro do
Amaral como seu grande mentor. De alguns anos para cá, passou a ser
denominada Cavalgada Aparados da Serra, a verdadeira. Cada cavaleiro,
ou cada grupo de cavaleiros - o piquete ou a comitiva, de várias
regiões e estados -, participa cada qual com sua organização própria,
seus cavalos prórios, ou cedidos, alugados de proprietários da região;
organizam seus próprios apoios, alimentação para os cavalos, suas
dormidas, seus ranchos.
É desafiante até antes mesmo do momento que
você decide ir, há que se antecipar em meses; fazer os contatos certos
e organizar do cavalo a roupas adequadas, e tudo o mais. Bem se
programar, sem dúvida, é um desafio. E, na hora, executar com a
flexibilidade que o imprevisto requer. Lelli, cavaleira que conosco já
participou dois anos seguidos, diz que gosta dela ser 'sujinha' e
'dificinha', um 'verdadeiro desafio' também na hora de cavalgar...
Como sempre, a essência de uma boa cavalgada é um bom cavalo, adequado
e condicionado ao nível e ambiente daquela específica cavalgada.
Um bom cavalo transporta um cavaleiro pouco experiente . Mas nem mesmo
um cavaleiro experiente tem como, durante uma cavalgada, condicionar
cavalo despreparado, quanto mais durante uma viagem-a-cavalo.
Luis Werneck
(24) 2249-3216
brasil.a.cavalo@terra.com.br